Visitantes inesperados – parte I

12 horas e 27 minutos, 10 de junho de 2019, três pessoas se materializam na Potsdamer Platz em Berlim, Alemanha. Uma multidão incrédula olha o bizarro e histórico evento.

Surge um flash difuso de luz turquesa e três figuras aparecem do nada, um homem velho e um jovem casal, como se tivessem atravessado uma porta invisível que saia exatamente no cruzamento entre as ruas Potsdamerstraβe e Ebertstraβe.

Dois ou três ciclistas caíram de suas bicicletas quando viram o ocorrido; meia dúzia de carros acabam ocasionando um engavetamento na Ebertstraβe, sem consequências graves para os envolvidos a não ser uma história para contar pelo resto de suas vidas.

– Eu estava lá quando tudo começou. – Era o que repetiriam pelos próximos anos.

Este acontecimento, por si só, teria sido inacreditável e, sem sombra de dúvidas, assim o era aos olhos de todos aqueles que pararam para observar o misterioso trio. No entanto, o que viria a acontecer depois deixaria todos ainda mais chocados.

Ao perceber que havia funcionado e que estavam em segurança “do outro lado”, o velho professor Ernst Pappenheim pega o revolver que carregava escondido no bolso de seu casaco e, com as mãos trémulas, dispara contra sua têmpora direita, caindo morto em frente à sua filha e genro.

Muitas pessoas não entenderam o que aconteceu ali, muitos tentaram racionalizar o evento da forma mais tranquilizadora possível para tentar justificar uma situação tão incomum.

– Havia acontecido um assalto seguido de assassinato? Um suicídio? – Pensavam. Questionavam. Especulavam.

Não importava a versão que as pessoas estavam construindo em seus cérebros do ocorriso às 12 horas e 30 minutos do dia 10 de junho de 2019 na Potsdamer Platz em Berlim; para a grande maioria, o flash turquesa e a materialização de três pessoas só podia ser algum tipo de alucinação, sendo o assassinato ou suicídio de um velhinho o único fato real.

Um andarilho barbudo chegou a sair correndo em disparada quando viu o evento, como se o mundo inteiro estivesse acabando naquela hora. Tudo aquilo só poderia ser uma prova do final dos tempos!

Considerar a materialização uma ilusão era a forma mais sensata de se lidar com a situação. Pessoas simplesmente não se materializavam no meio de praças! Talvez em Nova York, na América, e certamente em Hollywood… Em Berlim ou em qualquer outro lugar na Alemanha? Certamente que não.

Mas…

Haviam policiais no local… e câmeras, muitas delas. Policiais eram homens da lei acostumados a ver e lidar com diversas situações atípicas.

Estes policiais também haviam visto tudo o que ocorreu na Potsdamer Platz. Não haviam dúvidas! Ao menos não para as câmeras… únicas testemunhas ali incapazes de julgar o evento como real ou ilusório, ou tecer qualquer tipo de análise lógica ou filosófica sobre ele.

O corpo do velho foi levado ao necrotério municipal. O casal foi conduzido ao prédio da Kriminalpolizei, a Polícia Criminal Alemã, na Perleberger Straβe; e as gravações das câmeras da Potsdamer Platz ao veterano Chefe da Kripo Helmut Boelcke. As quais Helmut Boelcke estava vendo incessantemente e obcessivamente, junto com seus colegas em uma sala apertada da Kripo.

Não se faziam aquelas salas para um grande público. Afinal, quando as gravações das câmeras de segurança chamavam a atenção de um grande público? No máximo umas três ou quatro pessoas que, por dever, necessitavam ver horas e horas de imagens enfadonhas para tentar solucionar algum caso qualquer. Quando terminavam de ver um vídeo em um ângulo especifico, iam para outro ângulo.

– Agora a câmera 2 no sentido leste/oeste. – dizia Helmut, com a autoridade de ser “O Chefe” naquela sala.

– Agora vamos para a câmera 5 no sentido norte/sul.

– A câmera 6, talvez seja melhor.

– Agora a câmera…

E assim várias e várias vezes… incrédulos no que seus olhos viam.

Então pediram aos homens da Schutzpolizei, a Polícia de Proteção, presentes na praça no momento do ocorrido, para que repetissem detalhadamente o que viram, sem deixar de fora qualquer impressão pessoal do ocorrido.

Todo o evento não levou mais do que 2 minutos, mas cada explanação feita por cada policial, repetida diversas vezes, não levava menos do que meia hora para ser dita… as vezes até mais…

Sobretudo daqueles que estavam mais incrédulos com o que haviam visto. Muitos só tinham coragem de falar o que realmente presenciaram após assistirem as filmagens das câmeras de vigilância… Ótima prova de que não estavam malucos.

– Maldição! – Berrou Helmut ao perceber que, por fim, teria de encarar o casal, e que qualquer justificativa dada por eles acerca do evento acontecido já há 5 horas, teria de ser aceita por ele.

Já havia aceitado o impossível: o acontecimento do estranho fenômeno era real! No entanto, não podia aceitar, como investigador criminal experiente que era, interrogar testemunhas, ou possíveis suspeitos, sem nenhum tipo de conhecimento dos fatos que pudesse usar para pressioná-las. Qualquer caso que começasse desse jeito teria tudo para dar errado…

E estava claro em sua mente que aquele era um caso que não poderia dar errado.